E
então eu tenho focado muito em decoração essas últimas semanas. De tempos em
tempos essas coisas me acontecem.
De
vez em quando eu só respiro, como, bebo, durmo e sonho com fotografia. Às vezes
até a advocacia me faz feliz (poucas, é claro). Às vezes escrevo até pelos
cotovelos e, quando releio procurando os erros de português e de digitação,
consigo gostar do que escrevi.
A
conclusão é bem simples. Tenho ciclos. Sou de luas. Enfrento fases. Algumas
delas de peito aberto e outras tantas escondida atrás de meus escudos.
Normal...
Penso eu... Talvez todos tenhamos esses movimentos na vida e talvez eles não
sejam nem de todo bons, pois nos tornam instáveis, e nem de todo ruins, pois
nos impedem de morrer afogados em nosso próprio vômito, sem a mínima vontade de
agir – de mudar.
Em
todos esses processos que não começaram a semana passada e tampouco findarão na
semana que vem, eu, com minha auto critica afiada como espada, tenho sempre a
tendência de pensar logo de cara:
“-Afinal, o que está errado? Se quero mudar
as coisas, isso pode ser o sintoma de incertezas e insatisfações que não
permanecerão escondidas para sempre!”
Claro
que não encontro respostas e mais claro ainda que eu não deveria me preocupar
com elas já que só as perguntas já demonstram a inquietude que move e o
importante é se mover...
Na
minha auto critica estão contidos conceitos como:
"A sala dessa revista é tão mais bonita que a
minha! / Como esse fotografo consegue essa luz tão
perfeita para registrar esse ambiente? / Meu deus! Forrei uma parede do quarto de papel
contact colorido! Nunca mais poderei usar roupa de cama estampada! / Meu quarto é pequeno demais! Como posso ter
cama, penteadeira, armário, criado-mudo e escrivaninha nele? / Como posso tirar essas coisas e continuar
vivendo? / Nunca mais pintarei as paredes de branco! Suja
muito e o ambiente está sempre feio! / Eu não deveria ter aceitado a sugestão do
pintor para pintar a sala de marfim! Tinha que ter escolhido o branco-neve! / Tenho que tirar essas prateleiras do quarto,
mas onde vou enfiar todas essas coisas? / Tenho que arrumar o armário! / Tenho que guardar
todas as bolsas! / Tenho que organizar o banheiro!"
AFF!!!!!
As auto reprovações não terminam mais! A galinha do vizinho é sempre mais gorda
e eu sempre dependo de “comprar alguma coisa” para resolver o problema que – a
bem da verdade – não precisa de solução externa.
Só
para ilustrar, desde que vim morar aqui em 2002, já tive umas dez decorações
absolutamente diferentes. Sempre tentando melhorar, é claro! Mas nada justifica
a gastança sem fim de dinheiro e energia que nisso se esvaiu.
São
armários que foram doados, mesas transportadas para fora do Estado (e como
sinto falta daquela mesa de jantar!), toneladas de quadros e utensílios que
decoram hoje a casa da minha empregada, estantes que guardam agora as fotos e
objetos da minha sogra e por aí vai...
Não
só fisicamente as coisas mudaram muito por aqui, mas a essência da casa também
se transformou. Os gatos hoje são a prioridade na decoração e não o empecilho
que me faz ter o tecido “A” e não o tecido “B”. Eles têm mais lugar, afinal, a
casa é deles também.
Eu
tiro os sapatos assim que entro em casa, mas o marido não o faz e desfila com
os germes da rua por todos os tapetes, por todos os cômodos...
E
daí? A casa é dele também e por que eu ficaria como um demônio o atormentando
para tirar os sapatos no rol de entrada?
Será
que ele já não enfrenta chatices suficientes no mundo lá fora? Será que ele
precisa que eu transforme a alegria dele de chegar em casa em mais uma fonte de
obrigação de tirar os sapatos na porta, de guardar a roupa limpa no armário, de
colocar a suja no cesto, de deixar a bolsa no lugar certo?
Outro
dia caí na besteira de agendar uma visita de uma personal organizer aqui em
casa (ainda bem que paguei pela visita!). O resultado não podia ser diferente:
A
mulher queria deixar a “equipe” dela na minha casa por 15 dias! (meu
apartamento tem 100 m2 – em 15 dias eu derrubo o prédio e o reconstruo). Eu
disse que não tenho essa disponibilidade e ela disse que não tinha problema,
pois eu só teria que estar presente no primeiro dia! (OK. Vou deixar estranhos
por 14 dias dentro da minha casa, mexendo nas minhas coisas, sem eu estar
presente – ahã... vou sim!)
Criticou
até o meu último hábito doméstico. Disse que eu teria que “limitar” o espaço
dos meus gatos (mas eu quero exatamente o contrário e eu disse isso à ela!).
Que eu não deveria deixar a minha gata deficiente se esconder no meu closet
(onde tenho uma caminha para ela dormir a tarde como tanto gosta). Que eu teria
que “doutrinar” o marido para que fosse mais organizado. Que ele não guardaria
mais os pertences dele da forma que guarda hoje, mas sim do jeito que ela
organizaria (ãnn?).Que eu deveria organizar a minha gaveta de calcinhas por cor
e me “apresentou” uns casulos organizadores que estou careca de ver na
Tok&Stok como se fossem a novidade do século.
Disse
o quanto é ocupada e que não tem tempo para estar com a equipe durante todo o
trabalho (ãnn??). Mostrou-me como seu portfólio um monte de fotos de closets
que eu mesma já vi (aquelas mesmas fotos) em diversos sites na internet como se
eu vivesse numa caverna sem acesso à informação, e que para organizar o meu
closet, o meu quarto e o QG do marido eu lhe pagaria a bagatela de R$4500,00, fora todo o material que eu deveria comprar nos fornecedores que ela indicasse.
Tudo
bem... Sonhar todo mundo pode e achar que eu sou besta também... Afinal, eu
poderia reagir com uma gargalhada, um soco, uma mordida e não o fiz, não é mesmo?
Ela
me pareceu sair daqui muito descontente por eu não ter aceitado seus termos,
por eu ter dito que na minha casa só se fica na minha presença, que eu só teria
disponibilidade de ficar 15 dias enfiada dentro de casa em horário comercial
durante o recesso do Poder Judiciário, que eu mesma compraria o material – caso
fechássemos – nas lojas que eu entendesse melhores para mim, que não viraria o
demônio do tridente na vida do marido e dos gatos. Ah... e que gosto da minha
gaveta de calcinhas bagunçada. Acho tudo mais fácil!
De
qualquer forma, esse evento me trouxe grandes benefícios e por isso repito: que
bom que paguei pela visita dela!
Se
ela saiu daqui frustrada por eu não fechar esse negócio da China, recebeu para
estar comigo por 30 minutos o exato preço que me cobrou. No mais, se a proposta
fosse mais razoável, eu realmente estaria disposta a fechar.
Quanto
a mim, percebi que a minha casa tem a bagunça que eu e minha família fazemos
com nossos hábitos que nos fazem sentirmo-nos melhor aqui do que nos sentimos
na rua. Que devemos ter liberdade dentro de casa já que na rua a sociedade nos
impõe regras outras que tanto nos limitam. Que nada somos para impor aos outros
o nosso jeito de ver a vida. Que não seria justo com o marido reclamar da
desordem na gaveta de meias dele e nem seria humano com a minha gata deficiente
– que já tanto sofreu – impedi-la de dormir à tarde no meu closet!
Nada
disso a personal organizer levou em consideração mas a culpa não é dela! Ela
não conhece a história de cada membro da minha família. A rotina, as alegrias,
os hábitos, nada!!! Ela só queria organizar isso tudo segundo os padrões da
Casa Claudia! Como ela poderia saber que eu nem da Casa Claudia gosto?
Como
ela poderia saber que eu abomino móveis coordenados, modulares, projetados;
decoração minimalista, padronizada, regras de etiqueta ditadas por um bando de
gente enrustida e frustrada que precisa confirmar padrões? Como a coitada
saberia isso tudo em trinta minutos de contato? Impossível!
A
culpa foi minha mesmo. Por marcar a consulta dela crendo que seria possível a
individualização do serviço conforme as necessidades da família e não de acordo
com o que ela aprendeu em algum cursinho por aí ser o "padrão aceitável".
A
culpa foi minha por “olhar e não ver” (ato que tanto critico nos outros) que na
minha casa não tem bagunça – tem a minha história guardada como eu a entendo. E
quem é que tem que entender, afinal?
Aí
eu, no meio da madrugada, percebo quase que num lampejo de lucidez, que:
"Posso sim colocar vinte tipos de estampas
diferentes no meu quarto, desde que me sinta feliz nele. / A minha sala está iluminada, linda,
aconchegante, arejada, alegre com as paredes pintadas de marfim e o mais
importante – atende às necessidades de uso diário da minha família. / Cada cantinho da casa conta um pouco de nós e
de nossa história e isso é o que faz essa casa ser minha e não sua e por mais
linda que seja a sua casa, eu quero viver na minha. / Posso sim ter um armário desorganizado e
roupas penduradas. Por isso a casa é minha. Para eu fazer o que quiser nela sem
depender da aprovação alheia. / Se não der pra pintar a casa toda
imediatamente, não tem problema. Vou pintando aos poucos e me desfazendo
devagar da lembrança de cada manchinha nas paredes porque elas também tem uma
história e me lembram algo ou alguém. Eu posso esperar. Não preciso ter pressa
para apagar lembranças."
Sentindo
o perfume da liberdade, pude fotografar alguns cantinhos de casa com a câmera
do celular – sem técnica fotográfica, sem alta resolução, sem o equipamento
profissional que está lá no meu closet (será que ele deveria estar lá?), granuladas,
sem flash, (no meio da noite e com baixa luz DE PROPÓSITO), sem pretensões.
E
o resultado disso? Momentos de auto critica ferrenha transmutados em satisfação
e a compreensão de que cada uma dessas “carências” também falam de mim. Também
me tornam humana. Também me fazem parte do todo...
E
você? Já foi benevolente consigo e com a sua vida hoje? Já correu de padrões bobos ditados por quem nada sabe de você? Recomendo... Antes que
você permita que os outros caguem regras que você nem sabe porque terá que
respeitar...
Uma linda semana à todos...