"Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silêncios que se declaram." Machado de Assis

domingo, 30 de janeiro de 2011

"99 não é 100"

"O pior do brasileiro é o classicismo. Ele realmente pensa que é melhor do que o outro"... Assim começou, para mim, o maravilhoso documentário "Lixo Extraordinário" desenvolvido sobre uma idéia do artista plástico brasileiro de maior expressão no exterior, Vik Muniz.

Lixo Extraordinário recuperou a autoestima do cinema brasileiro no Oscar ao ser indicado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood na categoria documentário - longa metragem.

Único representante nacional na competição, a co-produção Brasil/Reino Unido nos salvou do vexame que foi a vontade lulista de colocar o filmeco despretencioso e apartidário (ahã) que contava a vida do ex-presidente e que pretendia fazer dele o mártir eterno do Fidelismo tupiniquim no pior estilo "amamos nosso lider e queremos o Oscar".

Co-dirigido por João Jardim, Lucy Walker e Karen Harley, Lixo Extraordinário retrata o envolvimento de Vik Muniz com a comunidade de catadores do Jardim Gramacho através da fotografia e das artes plásticas.

A simplicidade e a lucidez com que Vik Muniz trata seu projeto que gerou esse documentário são encantadoras! Desde o primeiro dia muito a vontade no Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho que, para quem não conhece, é o maior do mundo em área e volume de material recebido diariamente, o artista mostrou não somente o seu talento para as artes plásticas mas também a sua sensibilidade emocionante para a fotografia e para o trato humano.

O aterro fica situado no Município de Duque de Caxias, RJ, no bairro de Jardim Gramacho, 1º Distrito (Duque de Caxias). Situado ás margens da Baia de Guanabara e ocupa atualmente uma área de aproximadamente 1,3 milhões de m². Foi instalado a partir de convênio firmado em 1976 entre a FUNDREM, a COMLURB e a Prefeitura Municipal de Nilópolis, e com termos aditivos ao convênio foram incluídos os municípios de Nova Iguaçu e São João de Meriti.

Não bastasse todo o lixo dos Municípios limítrofes, (Duque de Caxias, Nilópolis, Mesquita, São João do Meriti e Queimados), 70% do lixo da cidade do Rio de Janeiro vai para Gramacho de onde 3500 catadores tiram o sustento de suas famílias.

Gramacho está no limite de sua capacidade e já apresenta sinais que, uma parte do lixo acumulado ali nos últimos 30 anos, pode verter para dentro da Baia de Guanabara. A melhor imagem que se pode usar para descrever o que pode acontecer com o aterro é a de uma grande montanha de lixo sobre uma base gelatinosa – já que o solo é argiloso no local que outrora era mangue - que a qualquer momento pode desandar para dentro da Baia de Guanabara.

As imagens dos caminhões despejando montanhas de lixo, os urubus voando baixo, os porcos se alimentando, as crianças brincando e os catadores avançando lixo acima, deram-me um misto de sensações de tristeza, impotência, vergonha e nojo. Não sei bem em quais medidas. Não sei bem em que contexto.

Os personagens mostrados no documentário estão muito distantes de uma utopia cinematográfica e muito mais próximos da minha e da sua vida do que se pode imaginar. Todos com conseqüências de vida que os empurrou para lá e que, depois disso, os enterrou em meio à montanha de lixo como se parte dele fossem não somente eles, mas toda a sua história. Qualquer um de nós poderia estar lá.

Imagine que a sua fonte de renda desapareceu e com ela todos os seus amigos, sua família e as portas se fecharam para você... Pronto... Você acabou de construir o caminho que poderia levá-lo para a prostituição, para o crime, para a mendicância ou para Gramacho. Apenas os mais dignos ficaram com a última opção.

Sr. Valter é um ecologista no mais completo sentido da palavra! Como sabe sobre conservação ambiental e o quanto poderíamos aprender com ele! "Mas só uma latinha? Sim. Pois 99 não é 100 e com essa única latinha a gente completa!" Ele não estudou. Passou quase 30 anos de sua vida em Gramacho. Como é culto!

O documentário nos traz essas histórias, a luta diária de cada um dos catadores que participaram do projeto, o seu desenrolar e os frutos colhidos dessa experiência tão distante da realidade de pessoas que nunca haviam entrado num museu na vida.

Minha impáfia envergonhou-me imensamente assim como a minha cegueira diante da vida real que se escreve como romance a menos de 50 km da minha porta, a despeito de mim, de meus pensamentos, de meus sonhos, todos eles muito distantes de Gramacho.

Vik Muniz, Fabio Ghivelder, Isis Rodrigues Garros, José Carlos da Silva Baia Lopes (Zumbi), Sebastião Carlos dos Santos (Tiao), Valter dos Santos, Leide Laurentina da Silva (Irmã), Magna de França Santos, Suelem Pereira Dias mostraram-me um pouco do que é o meu quintal, um pouco do que eu deveria me responsabilizar, um pouco do lixo que mando sem cuidado para Gramacho, um pouco do que um dia passou por mim e virou sustento de pessoas que nunca imaginei conhecer e de suas vidas brevemente participar - ainda que a distância. Ainda que envergonhada.

Já falei inúmeras vezes sobre o lixo ao Horizonte. Já tomei muitas decisões certas e erradas acerca do lixo que produzo. Já tentei milhões de vezes fazer com que pessoas desatentas prestassem atenção em seu lixo e na forma como o tratam mas nunca pensei nessas pessoas que com o lixo e do lixo vivem e sustentam suas famílias.

Neste post, já grande demais, não vou falar mais uma vez sobre impacto ambiental, plataformas de governo inócuas, consciência social, reciclagem de materiais nem nada do tipo. É apenas um post para falar o quão encantador é esse documentário e o quanto ele mudou a vida de um grupo de pessoas.

Nele podemos ver sonhos; a vaidade feminina estampada em brincos, piercings, olhos pintados e sorrisos em meio ao lixo; a dignidade de homens que sustentam suas famílias; a atuação tão espontânea de lideranças natas; reflexões acerca de Maquiavel e Nietzche molhados de chorume, secos atrás da geladeira e mergulhados na alma de um imenso homem chamado Tião.

Lixo Extraordinário é uma oportunidade riquíssima de pensarmos acerca de nossa responsabilidade na sociedade em que vivemos; da força que reside (ou jaz) dentro de cada um de nós e, sobretudo, sobre a chance que temos todos os dias renovada de ser a mudança que esperamos ver no mundo.

Lindo documentário... Imperdível...


2 comentários:

Mariana MT disse...

Lembro-me de ter assistido, quase sem querer, uma entrevista do Tião, no Jô Soares, que logo de cara perguntou a ele "Quer dizer que vc é catador de lixo" e ele respondeu "Não Jô, o lixo não pode ser reaproveitado, eu recolho material reciclável"...humildemente um cala a boca no arrogante apresentador, que pode ser um gênio, mas não entende nada de meio ambiente, vegetarianismo e sustentabilidade.

Quero muito assistir ao filme, principalmente para postar sobre. Embora eu já esteja familiarizada com a história, quero ver para escrever com mais propriedade...

E que este filme seja apenas o primeiro...

Adorei sua análise!

Mariana MT disse...

Ahh só mais uma observação...nessa mesma entrevista, o Tião mostrou tamanha articulação com as palavras, sua liderança clara, uma criatura culta e humilde ao mesmo tempo. Genial. Em pensar que existem tantos Tiãos pelo mundo, que não chegaram a faculdade e nem por isso deixaram-se dominar pela ignorância que cala, como tantas pessoas, inclusive das camadas mais abastadas insistem em fazer. E mais do que não se tornar outra vítima do sistema, eles vão e fazem: mudam, transformam...Nestes momentos dá orgulho de pertencer a espécie humana.